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3 Dec 2014

A Gnose de São Francisco de Assis – 2ª Parte: Nascimento Espiritual

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A GNOSE DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

2.ª Parte: Nascimento Espiritual

 

“- A mulher, irmão Léo, está sempre em contato com a terra e com a vida. E não se assuste com o que vou te dizer: Deus, por ser fonte de vida, está mais perto da mulher, e a mulher mais próxima de Deus. Sem que saiba, ela é um pouco da verdadeira figura de Deus.
– Louvado sejas, Meu Senhor, por Irmã Clara a qual é muito doce, humilde, preciosa e casta.
– Lembro-me dessa grande mulher que foi Dona Pica. E não se escandalize com o que vou te dizer: desde que conheci os mares profundos de minha mãe, Dona Pica, sinto sempre a tentação de chamar Deus de Mãe.”
(Fragmento de diálogo mantido entre Francisco de Assis e Irmão Léo, extraído da obra ‘O IRMÂO DE ASSIS’, de Inácio Larragnaga.)

 

No artigo anterior, além de abordarmos a origem do texto que ficou conhecido como ‘Oração de São Francisco’, rememoramos os três fatores de revolução da consciência apontados pela Gnose, a saber: morte mística(Morrer), nascimento espiritual(Nascer) e serviço desinteressado pela humanidade(Servir). Naquela ocasião, nos debruçamos rapidamente sobre o primeiro deles e, ainda que de modo aligeirado, reconhecemos a morte mística como sendo o processo de eliminação dos agregados psicológicos, os quais são conhecidos no idioma gnóstico como ‘egos’. Identificamos os elementos que indiciam o processo de morte psicológica pelo qual deverá passar, de um modo ou de outro, todo aquele que busca os tesouros da Luz. Nesse particular, é necessário tecermos algumas considerações.

Primeiramente, firmemos a compreensão de que o processo de morte iniciática, em si mesmo, já abarca a preparação para o nascimento espiritual, igualmente como o preparo inicial do bloco bruto de mármore deverá ser realizado pelo escultor até a obra de arte nascer. A cada lasca da pedra que é sacada habilmente pelas mãos do artista, um pouco da obra se revela. O Morrer e o Nascer se entrelaçam e se complementam, no eterno agora. São, sem dúvida, duas faces de uma mesma realidade.

Conforme nos ensina a Gnose, os seres que compõem a humanidade atual, em sua quase totalidade, não possuem alma humana, mas, tão-somente, o material psico-espiritual suficiente para engendrá-la. No esoterismo, essa semente de alma recebe diversos nomes, dentre os quais mencionamos Essência, Mônada, Centelha Divina etc. É a partícula de Deus em cada um de nós, aquilo que nos confere o DNA do Sagrado. Quando bem cultivada, nos possibilita alcançar a nossa real condição (“Sois deuses” – Jesus, em João 10:34, Bíblia Sagrada). A exemplo de toda semente, para que nosso embrião de alma germine e se transforme num Ser realizado, são necessárias algumas condições e cuidados: terra fértil e preparada, umidade adequada, adubação, proteção contra pragas, luz e outros zelos inerentes ao processo da vida e, principalmente, que haja a deflagração da força reprodutora contida na própria semente, consubstanciada pela atividade sexual. É o que se verifica na natureza, desde o mais simples organismo à mais complexa forma de vida. 

Mas se o processo de criação biológica encontra-se explicado e descrito pela ciência, como se daria, todavia, o processo chamado de ‘Nascimento Espiritual’?

“Quando um homem e uma mulher se unem podem se converter em deuses. Assim é como a Trindade se faz carne em nós. Assim é como nossa consciência se cristifica.”

O pensamento acima, generosamente legado por Samael Aun Weor, nos mostra a direção em que devermos caminhar para encontrar a resposta à pergunta e, desse modo, descerrar um dos mais espessos véus que recobre o Mistério dos Mistérios, o Grande Arcano.

Pois bem! Adiantemo-nos.

Uma das Leis que rege o Cosmos em todas as suas dimensões – visíveis e invisíveis, valendo lembrar que o homem é um microcosmo – é a Lei das Analogias, a qual pode ser enunciada nestes termos: “o que está em cima é análogo ao que está em baixo.” Lastreados nesse axioma hermético, podemos afirmar, em síntese e sem receio algum de engano, que o nascimento espiritual, assim como ocorre no nascimento biológico, é advento que reclama a atuação das energias criadoras (sexuais), o que só é possível com a união de um homem e uma mulher, em oitava superior, mais refinada, mais sutil. Isto é, para que o Ser espiritual nasça, é imprescindível o trabalho com as energias sexuais irradiadas pelas suas duas polaridades (homem e mulher). Fica, desta forma, demonstrada novamente a sabedoria do Alto que, pela magnitude da obra criadora, decidiu que desiderato desta grandeza somente poderá ser alcançado mediante responsabilidades compartidas entre um homem e uma mulher. É obra assaz grandiosa para ser realizada por apenas um! O homem tem aquilo que falta à mulher e esta, o que falta àquele. Somente quando enlaçados pela força de Eros e com os corações enlevados pelos influxos da comunhão com o Divino podem nascer espiritualmente. Outro aspecto representado pela necessidade da repartição de responsabilidades é o fato da indispensabilidade de integração, de unificação daquilo que aparenta apartado.

Colocadas as balizas gnósticas do tema ‘Nascimento Espiritual’, conduzamos nossas atenções para o personagem inspirador dessa trilogia: o Santo de Assis, que agora nos chega acompanhado por uma figura de igual magnitude e nobreza espiritual, Clara de Assis, sua inseparável companheira na Obra.

A inspiradora jornada de Francisco de Assis foi um inegável tributo ao Eterno Feminino de Deus. Desde criança Francisco reverenciava Dona Pica, nome carinhoso com que se referia a sua Mãe, a ponto de confessar, em sua ingenuidade singular, a ‘tentação’ que lhe assaltava de chamar Deus de Mãe! Adorava a Mãe Natureza com toda sua vida pulsante; abraçou a pobreza, dando-lhe o epíteto de irmã; manteve uma serena e resignada relação com a Mãe Morte. Envolvido por esse vivo sentimento de devoção à mulher, Francisco encontrou em Clara a síntese de todas as expressões do Sagrado Feminino.

Clara d’Offreducci, filha de uma família de nobres da pequena cidade de Assis, desde cedo encantava a todos, quer pela sua beleza angelical, quer pela amorosidade e preocupação para com os mais pobres. Inspirada pela decisão do seu contemporâneo e conterrâneo Francisco, ao completar a maioridade, na noite que antecedeu o Domingo de Ramos do ano de 1212, quando a penumbra abraçou a pequena Assis, Clara fugiu da casa paterna, saindo pela porta utilizada para retirada dos restos mortais dos falecidos. Naquela época, havia o costume de as casas mais abastadas manterem uma porta, na parte dos fundos, por onde os caixões dos defuntos eram retirados. Essa porta só era usada para este fim específico. Naquela noite, Clara deixa a casa de seus pais e vai até a humilde igreja da Porciúncula onde Francisco e seus discípulos a esperavam. Recebida com grande alegria, Francisco corta as belas e douradas madeixas da jovem, consagrando-a à vida monástica. Estava selado, desta forma, o compromisso indissolúvel de Clara com a Obra do Pai e, também, com Francisco. Clara foi a inseparável companheira do Cristo de Assis, que a chamava de ‘minha plantinha’. Foi uma vida de entrega ao Evangelho, aos pobres e um ao outro.

Em que pese o compreensível silêncio das biografias de Francisco e Clara a respeito de sua intimidade, nas esferas esotéricas mais avançadas e idôneas cultiva-se a convicção de que eles viveram as delícias do Santo Matrimônio. A indiciar o que se afirma, consultando o processo de canonização de Clara, deparamo-nos com o depoimento de uma amiga dela, atestando que, por dois anos, antes da fuga, Clara e Francisco se encontravam longe dos olhares maledicentes dos familiares e dos moradores da pequenina Assis. 

Na seara do Nascimento Espiritual, o que as correntes mais secretas da sabedoria divina apregoam – e a Gnose é uma das raras remanescentes – é que a Magna Opus, que tem como um dos seus mais belos momento o da Cristificação (o Nascimento do Menino de Ouro na manjedouro do mundo), necessariamente exige o verdadeiro e amoroso conúbio entre um Homem e uma Mulher. Assim ocorreu com os grandes Cristos da Humanidade (Jesus e Maria Madalena; Krishna e Radha; Budha e Yosadhara; Maomé e Kadhija; e Francisco e Clara de Assis). Estudiosos e pesquisadores da questão, tem, a cada dia, apresentado evidências daquilo que o bom senso de há muito nos fazia suspeitar: Jesus e Maria Madalena constituíram família e viveram em Matrimônio Perfeito. Com o casal de Assis sucedeu o mesmo. Francisco e Clara de Assis experimentaram, discreta e silenciosamente, uma forma de união amorosa sem pecados e sem máculas, distanciados de qualquer sombra de desejo animal.

Esforcemo-nos! Deitemos ao lado nossos condicionamentos religiosos e culturais! Revistamos o sexo com a túnica inconsútil da sacralidade que lhe é devida, pois é pelo sexo que aquilo que carregamos de mais precioso, nossas Essências Divinas, se tocam e se complementam. A mesma força que gera uma vida humana é a que engendra uma galáxia. A ciência vem avançando e chega a declarar que as nebulosas são verdadeiros ‘úteros do Universo’ onde as galáxias são geradas e de onde ‘nascem’. A atividade criadora – e portanto sexual – em dimensões galácticas, por força do axioma esotérico acima enunciado, é uma representação, em escala superior, do fenômeno de procriação humana. Ali o macrocosmo se organiza, aqui, o microcosmo chamado homem.

O trabalho alquímico tem nuances, fases e disciplinas que reclamam tempo adequado para sua compreensão. Essas disciplinas e responsabilidades são passadas por irmandades espiritualistas credenciadas pelo Alto para tal mister àqueles que estão prontos a recebê-las. Em Brasília, a Associação Gnóstica oferece cursos aberto ao público nos quais se explana sobre diversos assuntos, incluído o Sexo Sagrado. Nesses cursos, os participantes tomam conhecimento dos aspectos fundamentais do trabalho de transmutação das energias sexuais tanto para solteiros quanto para casais heterossexuais, legitimamente constituídos, unidos por laços de amor e de mútuo respeito.

Por ora, no entanto, aconselhamos o imediato resgate da dignidade do ato amoroso pelos casais que se amam e que anelam o aprimoramento espiritual para se colocarem a serviço da humanidade.

Assim, pacientes leitores e leitoras, reconduzamos o sexo ao trono de dignidade e pureza que lhe foi usurpado, afastando-nos da pornografia, da luxúria e da banalização do sagrado. Ao nos dirigir ao leito de amor, o façamos de mãos dadas e corações unidos, com profundo respeito ao parceiro e tomados por sincero sentimento devocional, símile ao que inspira o santo em suas orações, o sacerdote em suas liturgias. Transformemos o ninho de amor em ara sagrada e caminhemos para ele tomados pelo êxtase que arrebata aqueles que se dirigem à presença do Altíssimo. Imbuídos deses sentimentos estaremos nos habilitando a saborear as delícias e os prazeres que o ritual amoroso reserva somente aos que se amam de forma consciente, pura e sincera.

Que nossa Divina Mãe nos favoreça e conduza no processo de Nascimento Espiritual!

 

Josias D’Olival Junior é servidor da Justiça do Distrito Federal e instrutor da Associação Gnóstica de Brasília.